O mercado conhece a cena: a empresa atravessa uma crise e até o acionista que nunca aparece faz questão de votar na assembleia. Tem patrimônio em jogo. Quer saber quem vai cuidar dele. A queda da abstenção no segundo turno merece essa leitura. O brasileiro saiu de casa para participar da decisão sobre o futuro de uma organização da qual é o dono. A diferença é que, nessa assembleia, ninguém compra uma participação maior. Quem administra um fundo e quem pega dois ônibus para trabalhar têm o mesmo voto. Essa igualdade costuma desaparecer quando o resultado das urnas desagrada a quem se acostumou a ter mais voz.
Imagine Sônia, aposentada da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ela pensava em ficar em casa no domingo, mas a preocupação com a aposentadoria a faz separar o documento. O neto combina de acompanhá-la. Reclama do governo, quer mudança, mas sabe que é daquele dinheiro que sai parte da condução para o trabalho. A avó tem medo de perder. O neto quer ganhar mais. Os dois cabem no mesmo projeto de país.
Aprendemos nas nossas pesquisas no Instituto Locomotiva que família funciona como uma cooperativa: a renda de um sustenta o passo do outro. É por isso que proteger uma aposentadoria também interessa a quem ainda está começando e a redução da jornada 6x1 vai muito além do trabalhador CLT.
Imagine agora Cláudio, motorista de aplicativo e eleitor de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. A irmã recebe Bolsa Família, a sobrinha chegou à faculdade pelo ProUni. Ele quer crédito para trocar o carro. Não há incoerência a ser corrigida nessa família. Há pessoas que precisam de apoio diferente para caminhar. Incentivar o pequeno negócio, distribuir renda e valorizar o salário mínimo pertencem à mesma conversa sobre prosperidade.
Esse Brasil que investe nas pessoas venceu dos dois lados da disputa. Lula e Flávio pediram votos prometendo preservar a proteção social. O candidato derrotado defendeu o Bolsa Família, a continuidade do Pé-de-Meia e o aumento do mínimo acima da inflação.
Lula foi escolhido pelos acionistas brasileiros como o nome mais crível para executar a estratégia prometida. Recebeu o mandato e a obrigação de corresponder à confiança. Lula e Flávio defenderam investimento social. O mercado não pode ouvir só as promessas de ajuste fiscal e esquecer as de proteção social. Preservar esses programas é um compromisso dos dois candidatos, não um excesso de quem venceu.
A bolsa caiu porque parte dos investidores apostou na vitória de Flávio enquanto as pesquisas mostravam empate técnico. Quem vive de calcular risco deveria conhecer a distância entre preferência e certeza. A revisão das apostas pertence à contabilidade de quem apostou. A vontade do eleitor não é um erro de planilha.
O mercado tem razões para cobrar contas públicas sustentáveis. Sônia também: inflação corrói a aposentadoria, juros encarecem a vida. O debate necessário é como financiar o que foi prometido, melhorar o gasto e fazer o país crescer corrigindo suas desigualdades. Cabe ao governo apresentar o caminho e prestar contas. Cabe ao mercado financeiro compreender a decisão da assembleia. Democracia é isso e o brasileiro não vai tolerar nenhum estelionato eleitoral.
O tamanho de uma carteira de investimentos não aumenta o peso de um voto. O mercado participa do Brasil, mas não tem uma ação que lhe dê poder de veto sobre os demais brasileiros. Quem errou a aposta eleitoral não ganhou o direito de mandar a conta para a dona Sônia.
Palavras-chavede mandar a conta para a dona Sônia.





