O Supremo Tribunal Federal já não consegue esconder sua guerra interna.
Na terça-feira, André Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. A decisão foi submetida à Segunda Turma e recebeu o apoio de Luiz Fux e Nunes Marques, formando maioria, embora Gilmar Mendes tenha pedido vista e interrompido formalmente o julgamento.
O governo Lula reagiu por meio da Advocacia-Geral da União e pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, a suspensão imediata do afastamento. Fachin não decidiu sozinho. Deu 72 horas para que Mendonça se manifestasse.
Mas Flávio Dino resolveu não esperar.
Na manhã desta quarta-feira, utilizando uma investigação sob sua relatoria, determinou a reintegração imediata dos dois dirigentes da PF. Na prática, atravessou a decisão de Mendonça, ignorou a maioria já formada na Segunda Turma e esvaziou o encaminhamento dado pelo próprio presidente da Corte.
Não se trata apenas de uma divergência jurídica. É uma demonstração explícita de poder dentro do Supremo.
Dino ainda determinou que qualquer discussão sobre sua ordem seja levada exclusivamente ao plenário. Em outras palavras, criou uma blindagem para a própria decisão e lançou um recado aos demais ministros: a palavra final será dada no terreno escolhido por ele.
O componente político é impossível de ignorar.
Andrei Rodrigues chegou ao comando da Polícia Federal juntamente com Flávio Dino no início do governo Lula, quando o atual ministro do STF ainda comandava o Ministério da Justiça. Agora, diante do afastamento determinado por Mendonça, foi justamente Dino quem surgiu para recolocá-lo imediatamente no cargo.
Isso não prova combinação, mas produz uma aparência institucional devastadora.
A Polícia Federal está no centro de investigações que atingem o governo, o STF e interesses eleitorais poderosos. Seu diretor-geral foi afastado depois de Mendonça afirmar ter sido alvo de monitoramento ilícito por mais de 30 dias e questionar relatórios internos utilizados para pedir uma investigação contra ele. Em vez de permitir que essas suspeitas fossem apuradas com distanciamento, Dino respondeu atacando a decisão do colega e restabelecendo o comando da corporação.
É justamente esse comportamento que expõe a politização do Supremo.
Durante anos, ministros acusaram a direita de tentar interferir nas instituições. Agora, quando uma decisão contraria os interesses do governo Lula e de seus aliados, a reação vem em velocidade impressionante: a AGU recorre, Gilmar Mendes paralisa o julgamento e Flávio Dino reintegra a cúpula da PF antes mesmo do término do prazo concedido por Fachin.
Tudo rápido, coordenado na prática e politicamente conveniente.
André Mendonça pode ter sua decisão contestada. Isso faz parte do funcionamento de qualquer tribunal. O que não pode ser tratado como normal é um ministro utilizar outro processo para neutralizar a ordem de um colega já apoiada pela maioria de uma Turma.
Esse método não pacifica a Corte. Ele destrói sua autoridade.
Fachin precisa assumir imediatamente o comando do Supremo. A crise já ultrapassou os limites das divergências jurídicas e se transformou numa disputa aberta entre ministros, processos e interesses políticos. O cancelamento da sessão plenária desta quarta-feira apenas reforçou a dimensão do descontrole.
O Brasil não pode aceitar uma Suprema Corte em que cada ministro cria sua própria jurisdição para derrubar o colega, proteger aliados e impor sua vontade.
Quando ministros passam a combater decisões internas como adversários políticos, a Justiça perde a toga e entra definitivamente na campanha eleitoral.
E, neste momento, o que o país enxerga não é uma Corte constitucional.
É um poder dividido, politizado e perigosamente sem comando.

com a mão para não ser fotografado.





