Nascido em Ipumirim, uma pequena cidade do Alto Uruguai Catarinense, Neivor Canton, construiu uma trajetória marcada pela educação, atuação na política local até ingressar no cooperativismo.
Hoje, à frente da Aurora Coop, uma das maiores cooperativas agroindustriais do país, ele compartilha com franqueza os bastidores da sua liderança. A entrevista foi concedida ao projeto Líderes além do óbvio, do Grupo ND, e foi marcada pela lucidez e humildade.
Neivor fala sobre decisões difíceis, a responsabilidade de liderar uma organização com o envolvimento de milhares de famílias e os valores que norteiam a sua gestão, assim como as verdades que só o tempo (e a escuta atenta) ensina.
Presidente da Aurora Coop é eleito Personalidade de Vendas ADVBSC 2025 – Foto: Divulgação/ADVB
Neivor é entrevistado por Gilberto Kleinübing, diretor de mercado e Jean de Oliveira Böck, diretor de digital e inovação do Grupo ND.
Neivor Canton: Trajetória
Gilberto: Quem é você? Conte um pouco sobre a sua história até aqui
Nasci em Ipumirim, um pequeno município da microrregião do Alto Uruguai catarinense. Ali exerci as atividades profissionais de professor e contabilista. Por convocação da comunidade fui eleito vice-prefeito e depois prefeito.
Presidi várias entidades municipalistas, como a Federação Catarinense de Municípios (Fecam) e a Amauc. Na década de 1980 ingressei no cooperativismo, onde permaneço até hoje, portanto há mais de 40 anos. Presidi a Copérdia, a Fecoagro, Ocesc e, agora, a Aurora Coop.
Jean: Quais foram os paradigmas que você precisou quebrar para chegar até aqui?
Uma pessoa simples de uma bucólica cidade do interior catarinense pode ascender ao posto de comando de um grande conglomerado agroindustrial. Essa pode ser a maior lição da minha jornada pessoal. A crença no trabalho, nos valores da família e no balizamento ético podem ser os fatores impulsionadores dessa busca.
“Uma pessoa simples de uma bucólica cidade do interior catarinense pode ascender ao posto de comando de um grande conglomerado agroindustrial.”
Gilberto: Se você pudesse voltar aos primeiros anos como líder, o que faria diferente?
O cooperativismo é uma atividade que exige das lideranças muito tirocínio, capacidade de interpretação dos diversos cenários e indicação de rumos a seguir. É importante, porém, sempre ouvir as bases, porque as experiências de cada um sempre contém uma dose de sabedoria. Por isso, ouvir mais do que falar talvez fosse uma atitude mais constante.
Crenças, decisões e autoconhecimento
Jean: Qual é a crença mais controversa que você defende no ambiente profissional?
Não se trata de uma crença controversa, mas de uma crença dominante. A Aurora Coop é uma grande cooperativa central que pertence a 14 cooperativas agroindustriais filiadas, as quais reúnem mais de 90 mil famílias rurais.
Logo, é uma empresa de muitos donos. Por outro lado, a Aurora Coop mantém um quadro de mais de 47 mil empregados diretos. Gerar resultados para os produtores rurais (durante o processo produtivo, mediante a melhor remuneração das matérias-primas leite, grãos, aves, suínos etc.) e proporcionar ganhos adicionais aos empregados mediante programa de participação nos resultados (PPR) é parte da minha crença como gestor.
Gilberto: Conte sobre a decisão mais impopular que você já tomou, mas da qual não se arrepende
Apesar do ideário iluminista que emoldura as empresas de natureza cooperativista, é preciso entender que as cooperativas precisam ser eficientes, arrojadas e competitivas, pois o mercado é hostil e não perdoa incompetência.
Há momentos em que a realidade econômica e mercadológica exige medidas duras e decisões impopulares. Na crise financeira mundial de 2008, desencadeada por uma bolha imobiliária dos Estados Unidos, tivemos que cortar apoio a programas sociais, reduzir gastos com pessoal e suspender investimentos.
Jean: Qual verdade desconfortável você descobriu sobre si mesmo após assumir posições de liderança?
Percebi que fico relativamente desconfortável quando sou alvo de atenção por parte de instituições públicas ou privadas, imprensa ou entidades empresariais, porque sempre creditei as conquistas da minha jornada ao imenso esforço coletivo de minha diretoria, do quadro funcional, das cooperativas integradas ao Sistema Aurora e das milhares de famílias de produtores rurais cooperados.
Devo muito aos meus antecessores, especialmente ao pioneiro Aury Bodanese e ao ex-presidente Mário Lanznaster. Isso não é proselitismo, é um sentimento real.
Gilberto: Qual a maior ilusão que você teve no início de sua carreira?
Acreditar que bastam clareza de objetivos, boas intenções e o sincero desejo de trabalhar pela comunidade para obter o apoio e a compreensão de todos.
As coisas não funcionam assim. As pessoas, de regra, são egoístas e têm dificuldade em pensar no coletivo, no bem comum. Engajar as pessoas em um projeto coletivo e motivá-las para propósitos comuns – mesmo quando serão recompensadas na razão direta do esforço de cada – é o maior desafio do líder.
As pessoas, de regra, são egoístas e têm dificuldade em pensar no coletivo, no bem comum.
Jean: Como você sabe que é hora de desistir de uma idéia, mesmo que ela pareça boa?
Quando percebo que as pessoas não se sentem tocadas, sensibilizadas pela ideia proposta e, mesmo após sucessivas abordagens, não abraçam, não compreendem ou não valorizam a ideia proposta, é hora de desistir.
Valores e cultura da AuroraCoop
Gilberto: Quais são os valores inegociáveis de sua empresa?
Institucionalmente, nossos valores são ética, qualidade, confiança, cooperação, sustentabilidade e simplicidade. Podemos afirmar que essa é a síntese da cultura cooperativista.
Neivor aponta que os valores da AuroraCoop são ética, qualidade, confiança, cooperação. – Foto: Michel Kuntze
Jean: Como você promove e mantém esses valores no dia a dia da organização?
Exercemos esses valores na prática cotidiana, no campo, nas granjas, nas nossas indústrias, em nossas operações comerciais. Eles estão presentes em nosso planejamento, na definição de nossas linhas de investimentos, na nossa visão de futuro. Esses valores impregnam nossa cultura organizacional.
Gilberto: Na sua visão, o que realmente faz a diferença na hora de atrair e manter talentos excepcionais na empresa?
Esse é um desafio complexo e a cada dia torna-se mais premente, não só porque há uma escassez de recursos humanos, mas, fundamentalmente, porque as novas gerações de profissionais são motivadas por fatores que vão além de salário e status.
Eles precisam se sentir partícipes dos planos e projetos, serem devotos aos ideais do cooperativismo, sentirem-se desafiados por metas e objetivos.
Jean: O que você faz na prática para garantir que a inovação não seja só um discurso bonito, mas sim uma realidade no dia a dia da equipe?
A indústria da proteína animal é um setor de alta incorporação de tecnologia. Através da tecnologia as inovações são implementadas nas fases de campo, indústria, armazenamento, logística de transporte e distribuição e comercialização. Mantemos programas permanentes de melhorias contínuas, gerando, adaptando e adotando inovações.
Neivor fala sobre sucesso e visões de futuro
Gilberto: Qual tendência atual do mercado você acha exagerada ou passageira?
No universo da proteína animal surgem as mais variadas tendências. Uma tendência a qual acredito que perdeu o ímpeto inicial é da carne vegetal: produtos alimentícios que imitam a carne, mas são elaborados a partir de ingredientes vegetais.
Jean: Como você mantém a capacidade de se surpreender após tantos anos na liderança?
Para se surpreender, no nosso setor dos produtos alimentícios, basta manter-se em atividade. Atuamos em uma cadeia longa e complexa, submetida a um excesso de regulamentação e sujeita a muitas variáveis imprevisíveis e incontroláveis, como clima, sanidade, câmbio, comportamento do mercado, políticas públicas, suprimento de insumos, etc. Surpreendo-me com a superação de todos esses desafios; surpreendo-me com a resiliência de todos os agentes de nossa cadeia de valor.
Gilberto: Que conselho-clichê sobre sucesso você odeia ouvir?
Para ter sucesso é preciso perseverar. Esse conselho é verdadeiro, mas insuficiente para explicar.
Jean: Qual sucesso você acredita ter sido mais sorte do que competência?
Sorte é um fator que – em maior ou menor grau – sempre está presente nas sucessivas etapas que vencemos em nossa jornada.
Posso dizer que foi sorte ter tido a parceria de grandes companheiros, como Odacir Zonta, no início de minha vida cooperativista, Aury Luiz Bodanese, Mário Lanznaster, Marcos Antonio Zordan, José Zeferino Pedrozo e todos os presidentes de nossas 14 cooperativas filiadas.
Legados e aprendizados
Gilberto: Que legado você gostaria de deixar que não tenha relação direta com lucro ou negócio?
Não tenho pretensão de deixar legado, mas meu testemunho sobre a importância do amor ao cooperativismo e o valor do trabalho, do estudo, da amizade e da família. Isso é fundamental.
Jean: Qual problema do mundo você acredita que líderes empresariais deveriam estar mais comprometidos em resolver?
A questão ambiental. Tenho a sensação que os Governos e o empresariado em geral ainda não compreenderam a extensão e a gravidade da crise climática e ambiental que assola todos os continentes.
Gilberto: Qual a lição mais importante que você aprendeu com alguém fora do mundo dos negócios?
Minha saudosa mãe Ermida Canton ensinava que o conhecimento, via estudo dedicado e aplicado, é o melhor caminho para o sucesso porque, dizia ela, “não ocupa espaço e se torna um patrimônio que ninguém poderá tirar de você”. Esse ensinamento me acompanha desde a infância.
Rapidinhas | Momento sincerão
A ideia desse quadro é revelar verdades divertidas e sem filtros sobre o cotidiano profissional, que muitos pensam, mas poucos têm coragem de dizer.
Gilberto: Qual desculpa você mais usa para escapar de uma reunião desnecessária?
Agenda abarrotada de compromissos é uma realidade, em razão do modelo de governança das cooperativas que exige muitas reuniões. Por isso mesmo é a desculpa mais usual, mas com fundo de verdade.
Diretor-presidente da Aurora Coop, Neivor Canton – Foto: Aurora
Jean: Qual hábito comum em reuniões o tira completamente do sério?
Reuniões longas, prolixas e sem deliberações efetivas.
Gilberto: Qual tipo de slide ou apresentação você considera totalmente inútil?
Considero desnecessária a fundamentação teórica para assuntos, temas e problemas habituais do cotidiano da empresa. Admiro a objetividade, a concisão e a capacidade de expor de forma direta e consistente o assunto em pauta.
Rapidinhas | Momento sincerão
Aqui, a ideia é compartilhar histórias rápidas e engraçadas sobre situações embaraçosas do ambiente corporativo, mostrando o lado humano (e divertido) por trás dos grandes líderes.
Jean: Qual foi a situação mais embaraçosa que você enfrentou numa apresentação ou reunião importante?
Deletar do meu notebook, sem perceber, a apresentação (cuidadosamente preparada pela Diretoria Comercial) que iria fazer para grandes importadores, tendo que fazer a preleção de memória, com evidente prejuízo para a qualidade das informações. Por sorte, as negociações não foram prejudicadas.
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