O Comando Vermelho ganhou espaço nas principais rotas de cocaína da Amazônia e passou a ter papel central na mudança dos caminhos usados para levar a droga até a Europa, de acordo com estudo publicado neste mês de setembro. O avanço acontece principalmente em áreas estratégicas como Manaus, Pará e Amapá.A mudança também fez o Amapá ganhar importância no mapa do tráfico. Com acesso por rios, portos e pelo oceano, o estado passou a ser usado como uma nova saída para carregamentos de cocaína que seguem em direção ao mercado europeu.
Comando Vermelho avança sobre as rotas da Amazônia
Segundo estudo da GI-TOC (Global Initiative Against Transnational Organized Crime) assinado por Gabriel Funari, o Comando Vermelho está em posição de crescimento na Amazônia e consolidou presença em pontos importantes do tráfico. O grupo passou a ocupar espaços antes disputados principalmente com o PCC (Primeiro Comando da Capital). A diferença entre as organizações também aparece na forma de atuação: enquanto o PCC mantém uma estrutura mais organizada e baseada em regras internas, o Comando Vermelho trabalha de maneira mais descentralizada e tem incorporado grupos criminosos locais.
Em Manaus, por exemplo, o grupo assumiu pontos de distribuição de drogas em 2020. Desde então, segundo o estudo, Roraima é a única área da Amazônia brasileira onde o PCC ainda aparece em posição de destaque.
Amapá vira nova saída para a cocaína

O Porto de Santana é uma das principais portas de saída para cargas no Amapá
A expansão do Comando Vermelho aparece com força no Amapá. O estado não possui ligação terrestre com o restante do país e tem grande parte do território coberta por vegetação, características que dificultam a fiscalização.
O porto de Santana também se tornou estratégico. Em 2024, recebeu 77 navios que fizeram viagens internacionais, mas não possui equipamento para escanear contêineres. Em abril daquele ano, a PF (Polícia Federal) encontrou 150 quilos de cocaína escondidos no compartimento externo de um navio.
A situação ganhou uma dimensão ainda maior em março de 2025, quando autoridades interceptaram perto dos Açores, no Atlântico, um submarino com 6,6 toneladas de cocaína. A embarcação havia saído de Macapá com destino à Europa.
Cocaína também chega à Europa por outras rotas
De acordo com o estudo, o tráfico na região não depende de um único tipo de transporte. O estudo aponta o uso de barcos de pesca, lanchas, contêineres, pequenas aeronaves e até submarinos para levar a droga para fora do país.
Em junho de 2025, cerca de 400 quilos de cocaína foram encontrados em uma área rural de Macapá. De acordo com a investigação citada no relatório, a carga pertencia ao Comando Vermelho e aguardava o trabalho de um mergulhador para ser colocada em embarcações com destino a Portugal.
O crescimento das apreensões ajuda a mostrar como a região ganhou importância. Entre 2019 e 2024, as forças estaduais dos nove estados que fazem parte da Amazônia Legal registraram um aumento de 574% nas apreensões de cocaína, segundo o estudo.
Tráfico se aproxima do garimpo ilegal

O relatório relaciona a expansão do tráfico a outras atividades ilegais, como o garimpo
O dinheiro das drogas também passou a circular em outras atividades criminosas. O relatório aponta que Comando Vermelho e PCC ampliaram a presença no garimpo ilegal, especialmente em áreas próximas às rotas do tráfico.
No caso do Comando Vermelho, a expansão chegou até o Peru, onde o grupo passou a atuar em áreas de cultivo de coca, além de manter alianças com dissidentes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
A combinação entre tráfico de drogas, garimpo ilegal e disputa por território aumenta a pressão sobre comunidades e regiões onde a presença do Estado é menor.
Violência acompanha avanço das organizações
A expansão das rotas também ocorre em uma região marcada por índices elevados de violência. Em 2024, a taxa de homicídios na Amazônia brasileira chegou a 27,3 mortes para cada 100 mil habitantes, 31% acima da média nacional apontada no estudo.
O Amapá apresentou um dos cenários mais extremos, com taxa de 45,1 homicídios por 100 mil habitantes no mesmo ano. O relatório aponta que a disputa entre grupos criminosos, o controle de rotas e a busca por novos mercados ajudam a explicar parte dessa dinâmica.
A mudança no mapa do tráfico

O estudo mostra como as rotas do tráfico podem mudar conforme aumentam as ações de fiscalização
O estudo conclui que o Comando Vermelho está em posição ascendente nas rotas de cocaína da Amazônia e ganhou força especialmente na ligação entre a região, o Atlântico e o mercado europeu.A expansão pelo Amapá mostra como o tráfico vem buscando caminhos alternativos para escapar da fiscalização e manter o fluxo de drogas. Ao mesmo tempo, Manaus continua como um dos principais pontos de circulação dentro da Amazônia.
Entre 2019 e 2024, as apreensões de cocaína feitas por forças estaduais nos nove estados da Amazônia aumentaram 574%, um salto que ajuda a dimensionar a transformação das rotas do tráfico na região.
Palavras-chavedas rotas do tráfico na região.





