Segundo o relato atribuído ao Metrópoles, Davi Alcolumbre teria dito a interlocutores que não conseguirá impedir o avanço de pedidos de impeachment contra ministros do Supremo se Flávio Bolsonaro vencer a eleição presidencial e a direita conquistar maioria no Senado.
Há um detalhe que parece escapar ao cálculo do presidente da Casa: nesse cenário, ele poderá perder a própria presidência. Antes de imaginar quais processos conseguirá segurar, deveria pensar em quem ainda estará disposto a mantê-lo no comando.
Uma vitória conservadora precisa representar uma mudança de postura. Seria um contrassenso eleger uma maioria com o discurso de enfrentar os excessos do Judiciário e depois entregar a chave do Senado a quem simboliza, para esse eleitorado, a política da gaveta.
Alcolumbre fala como se sua permanência fosse uma cláusula obrigatória de qualquer governo. Como se uma eventual vitória de Flávio viesse acompanhada do compromisso de preservar os mesmos personagens, os mesmos acordos e a mesma acomodação institucional.
É melhor esperar sentado.
A cobrança da direita também alcança Rodrigo Pacheco. Politicamente, os dois representam uma condução do Senado que merece ser confrontada: diante dos conflitos com o Supremo, a resposta oferecida aos eleitores conservadores ficou muito aquém da firmeza prometida. Quem esperava independência viu uma instituição incapaz de transmitir disposição para enfrentar o problema.
E o ponto central é esse: o Senado não pode funcionar como um seguro de tranquilidade para ministros do STF. Pedidos de impeachment devem receber análise responsável, fundamentada e transparente. A gaveta permanente não pode substituir uma resposta institucional.
Se Flávio vencer e houver maioria conservadora, a coerência exigirá uma presidência comprometida com essa cobrança. Na nossa avaliação, Rogério Marinho ou Tereza Cristina seriam alternativas compatíveis com uma mudança de direção. A escolha dependerá dos senadores, mas o eleitor tem todo o direito de cobrar o compromisso assumido nas urnas.
Alcolumbre pode até acreditar que continuará indispensável. É um vício recorrente de quem passa tempo demais no poder: confundir a cadeira pública com patrimônio pessoal.
Se a direita receber um mandato de mudança, preservar o comando da acomodação será uma traição à expectativa do eleitor. Alcolumbre deveria se preocupar menos em segurar os processos e mais em arrumar as gavetas para o sucessor.
Palavras-chavegavetas para o sucessor.





