Quando o Irã resolveu responder a Donald Trump com um vídeo produzido por Inteligência Artificial, que mostrava o presidente americano aguardando numa mesa de negociação até receber um bilhete com a frase “Trump, cale a boca”, seguido de risadas de programa de comédia, o mundo viu o que especialistas já chamam de guerra de informação de nova geração. Vídeos manipulados, criados por IA, usados como propaganda, ataque simbólico e instrumento de influência sobre a opinião pública. Rápidos, baratos, acessíveis e, muitas vezes, indistinguíveis da realidade. Sei que o assunto pode parecer chato, até antipático para alguns, mas é necessário insistir nele. Este espaço já vinha alertando para esse risco no contexto brasileiro, e agora essa preocupação ganha ainda mais força diante do uso explícito dessas ferramentas em conflitos internacionais. Se isso já acontece em conflitos de narrativas em uma guerra, o que impede que o mesmo arsenal seja usado nas eleições brasileiras deste ano?
No ambiente eleitoral, o impacto tende a ser ainda mais sensível. A velocidade de produção e disseminação desses conteúdos supera, com folga, a capacidade de resposta institucional. A Justiça Eleitoral brasileira, embora experiente no combate à desinformação, enfrenta um desafio inédito: identificar, comprovar e punir deepfakes em tempo hábil. Quando a resposta chega, muitas vezes o dano está consolidado.
O risco central não está apenas na existência de conteúdos falsos, mas na erosão da confiança. Se tudo pode ser manipulado, tudo passa a ser suspeito. E, nesse cenário, a dúvida se torna tão poderosa quanto a mentira.
Diante disso, a eleição exigirá mais do que regras e fiscalização. A tecnologia avançou, mas a responsabilidade final ainda é humana. A responsabilidade das plataformas é real. A do Estado é urgente. Mas a do eleitor é insubstituível. Duvidar antes de compartilhar, exigir fontes e resistir ao impulso da indignação instantânea são, hoje, atos de defesa democrática.
Num cenário em que a mentira virou produto industrial e a guerra de informação cruzou fronteiras, o ceticismo qualificado deixou de ser virtude e passou a ser dever cívico.
Palavras-chavevirtude e passou a ser dever cívico.





